Brasil vai ter 2° turno com bolsonarismo fortalecido

Com 47% dos votos, Flávio Bolsonaro entra com vantagem no 2° turno ao ficar à frente de Lula, que obtém 45,2% e vê eleitorado encolher. Pleito é marcado por onda de direita também no Senado e governos estaduais.

O Brasil vai voltar às urnas em 25 de outubro para decidir quem comandará o país pelos próximos quatro anos: o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de esquerda e que tenta conquistar um quarto mandato, ou o senador Flávio Bolsonaro (PL), herdeiro do ex-presidente Jair Bolsonaro que busca uma revanche e levar a extrema direita de volta ao poder depois da derrota de 2022.

Com 100% das urnas apuradas, o desafiante Flávio Bolsonaro obteve neste domingo (04/10) de primeiro turno 47,03% dos votos, terminando à frente do presidente Lula, que conseguiu 45,2%.

Na terceira posição, muito atrás dos dois primeiros colocados, ficou Augusto Cury (Avante), com 2,89%. Somados, os demais candidatos não conseguiram nem 8% dos votos.

Ao terminar à frente, Flávio Bolsonaro chega ao segundo turno como o mais cacifado para vencer em 25 de outubro, dado o histórico das eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização, que nunca registraram uma virada na segunda rodada. Lula, por sua vez, registrou uma perda de 3,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno de 2022.

A força do bolsonarismo ainda se refletiu em disputas para o Senado e governos estaduais, que foram novamente alvo de uma onda de direita. O PL elegeu 19 senadores, passando a somar 28 membros na câmara alta do Congresso – de longe a maior bancada e mais que o triplo do total de senadores filiados ao PT.

Os bolsonaristas ainda elegeram pelo PL cinco governadores neste domingo – no Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Rondônia e Roraima. Já candidatos do partido Republicanos, alinhados com o bolsonarismo, conquistaram os governos de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso.

Lula em declínio

Nas dez eleições presidenciais disputadas no período da redemocratização, Lula foi ou tentou se apresentar como candidato em oito. Com o presidente se aproximando dos 81 anos, esta pode ser a última disputa presidencial com seu nome nas urnas.

Preso e barrado do pleito de 2018, Lula protagonizou uma das reviravoltas políticas mais dramáticas da história ao derrotar em 2022 o então presidente Jair Bolsonaro e conquistar um terceiro mandato, na que foi a eleição mais apertada desde a redemocratização.

Em 2022, Lula havia chegado ao segundo turno com uma margem de 5,2 pontos sobre Jair Bolsonaro. Desta vez, porém, o primeiro turno se mostrou mais difícil para o petista, que terminou em segundo lugar, ficando atrás de Flávio por cerca de dois pontos e mostrando que o lulismo, presente direta ou indiretamente nas eleições presidenciais desde 1989, pode estar mostrando sinais de esgotamento. Ainda em relação a 2022, Lula perdeu cerca de 3,4 milhões de votos.

Ao longo da campanha de 2026, Lula até se manteve no topo das pesquisas, mas sua popularidade permaneceu distante dos níveis observados em 2010, quando completou seu segundo mandato. Pesquisa Datafolha divulgada na semana antes do primeiro turno mostrou que 49% desaprovam e 48% aprovam o governo de Lula.

Sob Lula a partir de 2023, vários indicadores econômicos do Brasil mostraram sinais de melhora após declínio no fim da gestão Jair Bolsonaro. O país registrou números recordes de empregabilidade, com uma taxa de desemprego de 5,3%, assim como os menores níveis de pobreza e extrema pobreza da série histórica (desde 2012).

No entanto, apesar da melhora de vários índices, houve a persistência de um sentimento negativo entre muitos eleitores em relação ao custo de vida, de forma semelhante ao que ocorreu com o ex-presidente democrata Joe Biden nos EUA em 2024, cujo partido acabou sendo derrotado nas urnas no mesmo ano, e ainda por cima por um rival que havia superado na eleição anterior: Donald Trump.

“O resultado muitas vezes é inesperado. A gente nunca consegue tudo aquilo que a gente queria. Eu confesso para vocês que eu estava convencido de que iria ganhar as eleições em primeiro turno”, afirmou Lula após o resultado deste domingo.

Lula votando em 2026
Em busca de quarto mandato, Lula viu seu eleitorado encolher em relação ao pleito de 2022 Foto: Amanda Perobelli/REUTERS

Flávio Bolsonaro em busca de levar bolsonarismo de volta ao poder

Senador de 45 anos que substituiu seu pai declarado inelegível, Flávio Bolsonaro inicialmente se lançou à Presidência no ano passado no que parecia uma mera manobra política de “troca de moeda” que ainda poderia abrir caminho para outro candidato da extrema direita.

Mas ele rapidamente foi bem-sucedido em herdar boa parte do capital político do pai, Jair Bolsonaro, e se cacifar como o principal desafiante da candidatura à reeleição de Lula. Na contagem de votos do primeiro turno, Flávio obteve mais de quatro pontos percentuais a mais em relação a Jair Bolsonaro em 2022, que chegara ao fim da primeira rodada daquela eleição com 43,2%.

Liderando uma campanha revanchista após a derrocada de Jair, que não se reelegeu e ainda acabou preso e condenado, Flávio prometeu “fazer justiça” pelo pai e anistiar os envolvidos no ataque golpista de 8 de janeiro de 2023.

Sem o poder da máquina pública, com o qual seu pai contou na eleição passada, Flávio utilizou críticas ao custo de vida, preço dos alimentos, corrupção e situação da segurança pública como alguns temas de campanha.

Mas sua candidatura focou especialmente num discurso “anti”: antilulopetista e anti-STF. Flávio tentou mesclar os escândalos envolvendo o Supremo Tribunal Federal ao presidente, argumentando que ministros da corte atuam como “agentes políticos do Lula”.

No entanto, o próprio Flávio se viu ao longo da campanha envolvido no escândalo do Banco Master, especialmente após a revelação que o senador pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para o financiamento do filme Dark Horse, sobre a vida do seu pai.

Outras situações de tensão ocorreram, como um desentendimento público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado nestas eleições. As articulações da família Bolsonaro junto ao governo Trump também levaram em alguns momentos Flávio a ficar na defensiva.

Ainda assim, a sucessão de turbulências não foi suficiente para levar Flávio Bolsonaro a perder força nem mesmo na reta final da campanha. Com o peso do sobrenome, Flávio ainda neutralizou rivais de direita que se apresentaram como alternativas na eleição.

“Estou muito feliz com a possibilidade real de, daqui a três semanas, estar decretado o fim da era do PT”, disse Flávio após a divulgação do resultado do primeiro turno.

Flávio Bolsonaro votando
Flávio Bolsonaro superou neste domingo votação do seu pai no primeiro turno de 2022 Foto: Ricardo Moraes/REUTERS

Onda de direita no Senado e nos governos estaduais

Os resultados mostraram que Flávio se saiu melhor do que indicavam as pesquisas da véspera, que apontavam empate técnico, mas com uma leve vantagem para Lula. Na contagem final, Flávio ficou cerca de dois pontos à frente do petista, ou 2,3 milhões de votos.

Além de terminar à frente no primeiro turno presidencial, o bolsonarismo, junto com seus aliados de direita, também mostrou força nas eleições legislativas e nas disputas de governos estaduais.

O PL de Flávio Bolsonaro conseguiu conquistar cinco governo estaduais ainda neste domingo – Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rondônia e Roraima – e ainda tem chance de garantir um sexto, o Rio de Janeiro, a depender de como a Justiça Eleitoral vai lidar com os votos de uma candidatura impugnada que ficou em terceiro lugar.

Já candidatos do partido Republicanos, alinhados com o bolsonarismo, conquistaram os governos de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. Em 2022, o PL e o Republicanos só haviam elegido um governador cada já na primeira rodada.

A nova onda bolsonarista também se refletiu com força no Senado, com o PL elegendo 19 senadores neste domingo. Com os nomes que já ocupam vagas desde 2022, o partido vai somar 28 senadores – a segunda maior bancada desde a redemocratização. O partido está agora bem à frente do PT, que terá a segunda maior bancada, com nove membros, após eleger seis senadores neste domingo, que se juntarão a outros três que já ocupavam cadeiras.

Em cinco estados (Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia e Santa Catarina), o partido de Flávio Bolsonaro conseguiu levar as duas vagas que estavam em disputa.

A eleição do Senado era vista como especialmente crucial pelos bolsonaristas, dado o papel do Senado na aprovação de novos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e – especialmente – na potencial remoção de membros da corte. Com a bancada mais numerosa, Flávio Bolsonaro e seus aliados devem tentar eleger um membro do PL como próximo presidente do Senado, algo que pode ter impacto na avaliação de pedidos de impeachment contra membros do STF e na tramitação de indicações presidenciais para o tribunal.

Já o PT, com os seis senadores eleitos neste domingo, vai manter a mesma bancada de nove parlamentares no Senado. Ainda assim, o resultado carrega impacto negativo. Apesar de eleger dois nomes na Bahia, o partido e seus aliados saíram sem senadores em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, além de perderem a vaga no Rio Grande do Sul. Até o líder do PT no Senado, Randolfe Rodrigues, perdeu a disputa pela reeleição no Amapá.

“Terceira via” presidencial fracassa novamente

Candidatos à Presidência que tentaram se apresentar como alternativas à polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro amargaram neste domingo uma votação pífia, após enfrentarem indiferença do eleitorado pela maior parte da campanha.

Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) somaram apenas 11% dos votos. O mais bem-posicionado dos membros da “terceira via”, Cury, teve apenas 2,9% –  a pior votação percentual de um terceiro colocado no primeiro turno desde 1989.

Essa foi segunda eleição seguida em que um candidato descrito como “terceira via” não conseguiu nem mesmo superar a marca de dois dígitos.

Blog do Rosálio Daniel/dw/Jean-Philip Struck

 

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