O QUE SE SABE SOBRE AS CRIANÇAS QUE PASSARAM 40 DIAS PERDIDAS NA SELVA
Quatro irmãos, com idades entre um e 13 anos, ficaram desaparecidos por 40 dias na Amazônia colombiana após o avião em que eles estavam cair. Todos estão fora de perigo e recebendo tratamento em Bogotá.
As quatro crianças resgatadas na selva amazônica colombiana após ficarem 40 dias desaparecidas estão recebendo tratamento médico em Bogotá e estão fora de perigo, informaram autoridades da Colômbia na noite deste sábado (10/06).
Elas ficaram perdidas e sozinhas após a queda do avião em que estavam provocar a morte da mãe delas, do piloto e de um líder indígena da região.
Os sobreviventes são Lesly Jacobombaire Mukutuy, de 13 anos, Soleiny Jacobombaire Mukutuy, de nove anos, Tien Noriel Ronoque Mukutuy, de cinco anos, e Cristin Neruman Ranoque Mukutuy, de um ano.
Membros da equipe de buscas chamaram Lesly, a mais velha dos irmãos, de “heroína” e disseram que, graças a ela, todos foram encontrados em segurança.
“Foi a menina, a mais velha, nossa heroína, aquela que com sua sabedoria cuidou e protegeu seus irmãos”, explica o diretor da Unidade de Restituição de Terras, Giovanny Yule, que participou das buscas.
Como estão as crianças
O responsável do Comando Conjunto de Operações Especiais da Colômbia (CCOES), general Pedro Sánchez Suárez, disse que as crianças foram transferidas para o Hospital Militar, em Bogotá, “onde estão sendo tratadas física e psicologicamente”, segundo informou o portal El Tiempo.
As crianças foram transportadas de San José del Guaviare para Bogotá em um avião ambulância da Força Aérea colombiana, juntamente com o pai e padrasto e um dos avós, sob os cuidados de uma equipe de pediatras.
“Acabei de olhar para meus netos”, disse Fidencio Valencia, um indígena huitoto de 47 anos, a repórteres do lado de fora do hospital. “Eles estão felizes em ver a família e têm todos os sentidos completos”, acrescentou o avô.
As crianças devem ficar internadas de duas a três semanas e serão atendidas por uma equipe multidisciplinar.
O general Carlos Rincón, médico do hospital, indicou que as crianças receberão “apoio tradicional e psicológico para poder se adaptar a essas novas condições”. Segundo Rincón, elas estão sendo submetidas a exames de diagnóstico clínico e de imagem e recebendo tratamento de recuperação nutricional e psicológica.
Uma delegação do governo, chefiada pelo presidente, Gustavo Petro, e pelo ministro da Defesa, Iván Velásquez, visitou as crianças neste sábado e destacou que elas estão em boas condições, tendo em conta a odisseia que viveram.

Por que elas estavam perdidas
As crianças viajavam com a mãe e um líder indígena em um pequeno avião Cessna 206, operado pela empresa Avianline Charter, que desapareceu dos radares em 1º de maio, nas imediações de San José del Guaviare, no sul do país, cidade para a qual se dirigia.
De acordo com as investigações, noticiadas pela mídia local, o piloto comunicou por rádio que o motor do avião tinha falhado e, pouco depois, a aeronave se chocou contra copas de árvores e caiu violentamente de bico no chão. A causa do acidente ainda não foi determinada.
Os três adultos morreram no acidente e seus corpos foram encontrados vários dias depois.
Os menores embarcaram no avião para fugir de guerrilheiros que recrutam e intimidam os habitantes locais. Na área, de difícil acesso fluvial e sem rodovias, é comum viajar em voos particulares.
Como foram as buscas
Logo após a descoberta dos destroços do avião e dos corpos dos três adultos, uma equipe de mais de uma centena de pessoas, formada por militares e indígenas de várias tribos, iniciou a procura das crianças.
A esperança de que elas pudessem ser encontradas com vida foi alimentada pela descoberta, na selva, de objetos pessoais, assim como de uma fruta parcialmente comida, uma mamadeira e um abrigo improvisado.
As equipes percorreram 2.656 quilômetros seguindo o rastro dos menores, utilizando táticas militares e práticas tradicionais das comunidades nativas e fizeram vários voos de helicóptero e avião para encontrá-las.
Além disso, jogaram dezenas de kits de sobrevivência de aviões enquanto reproduziam uma mensagem da avó das crianças, gravada na língua huitoto, pedindo para que ficassem parados e esperassem ajuda.

Onde as crianças foram encontradas
Segundo mapas do Exército colombiano, os irmãos foram encontrados a cinco quilômetros do local do acidente, em uma área remota entre os departamentos de Caquetá e Guaviare.
A selva é muito densa e perigosa no local e as buscas foram dificultadas pela presença de animais selvagens, árvores de até 40 metros de altura e chuva intensa.
Além de animais selvagens e vegetação hostil, a selva amazônica abriga guerrilheiros que romperam com o pacto de paz assinado pelas FARC em 2016.
Após serem avistadas na sexta-feira, um helicóptero da Força Aérea Colombiana (FAC) foi acionado e retirou os menores da selva e os levou a San José del Guaviare, capital do departamento de Guaviare.
Depois, um avião C-295 configurado como ambulância os levou à capital Bogotá.
Como as crianças sobreviveram
Os “filhos do mato”, como dizia o avô, conseguiam sobreviver comendo um pouco de farinha de mandioca que estava a bordo do avião e resgatando parte da comida jogada ao acaso por helicópteros do Exército.
Além disso, eles consumiram “sementes”, frutas, raízes e plantas que identificaram e sabiam serem comestíveis, explicou Luis Acosta, chefe nacional dos guardas indígenas da Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC).
“São crianças indígenas e conhecem muito bem a selva. Sabem o que comer e o que não. Conseguiram sobreviver graças a isso e à sua força espiritual”, disse Acosta, que participou das operações de busca.
Cerca de 84 voluntários, integrantes das guardas indígenas dos departamentos de Caquetá, Putumayo, Meta e Amazonas, passaram a integrar a “Operação Esperança”, como foi batiza.
Com facões e latas de tinta spray, os socorristas deixaram marcas e troncos cortados e colocados estrategicamente para orientar as crianças.

Padrinhos
No avião médico rumo a Bogotá, o pai das crianças convidou o general colombiano que liderou as operações de busca, Pedro Sánchez, para ser padrinho da caçula dos irmãos, que completou um ano enquanto estava perdida.
“Para mim é uma honra”, respondeu Sánchez, segundo o canal de televisão Caracol.
Outro general, comandante das Forças Especiais, será padrinho de outro dos irmãos da comunidade huitoto, Tien Noriel, que fez cinco anos enquanto estava perdido.
Cão desaparecido
Agora, após o resgate das crianças, as buscas seguem para encontrar o cão Wilson, um pastor belga malinois que integrava a equipe e desapareceu durante a operação.
Os militares e o governo não descartam que o animal tenha cruzado com as crianças em algum momento.
“Lesly sorriu para nós, nos deu um abraço, contou sobre o cachorrinho”, destacou Astrid Cáceres, diretora de uma entidade estadual que zela pelos direitos das crianças.
Blog do Rosálio Daniel/DW
